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    Uma reflexão sobre o 'memento mori'

    Publicado 01/04/2025 às 19:52 | Autor: Erika Figueiredo
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    Narrativa se desenrola em torno do príncipe siciliano Fabrizio Salina e de sua família.
    Narrativa se desenrola em torno do príncipe siciliano Fabrizio Salina e de sua família. |  Foto: Arte / Divulgação

    A hora da nossa morte, nosso memento mori, é quando fazemos um balanço de tudo que se passou conosco e das escolhas que fizemos, perante essas circunstâncias. Filósofos antigos como São Tomás de Aquino colocavam um crânio sobre suas mesas de trabalho, a fim de que não se esquecessem da máxima “do pó viemos e ao pó retornaremos”.

    Esse é o tema abordado, como pano de fundo, na série Il Gattopardo na Netflix. Baseada nos livro de Giuseppe T. Lampedusa, a narrativa se desenrola em torno do príncipe siciliano Fabrizio Salina e de sua família. Também conhecido como Il Gattopardo (O Leopardo), o príncipe é um homem vaidoso e altivo, arrogante e soberbo em suas decisões.

    Conduz com pulso de ferro os rumos de sua família, não admite críticas a suas atitudes, é intransigente em diversos assuntos e gera conflitos e disputas que poderiam ser evitados, por meio do diálogo.

    Entretanto, os tempos eram outros. Estamos no século 19, quando a Itália era palco de inúmeros conflitos por sua unificação, sendo, à época, dividida em vários reinos. O reino governado pelo príncipe era o da Sicília. Pai de seis filhos, Don Fabrizio tem que demonstrar força e poder, e enxerga seu sobrinho Tancredi como seu sucessor natural, em detrimento do próprio filho Paolo. Com isso, protege e encobre os excessos do sobrinho, o que gera ressentimentos no filho.

    Sua filha Concetta é a menina de seus olhos e a voz da razão, dentro de sua família. A ela, cabe o difícil papel de alertar o pai sobre seus erros, não sendo, contudo, bem compreendida por este, o que gera muitos desentendimentos entre os dois.

    A estória é belíssima, trazendo questionamentos sobre fé, amor, valores e virtudes, prazeres e política, escolhas e renúncias, traições e reconciliações. Reproduz a época e os conflitos havidos na Itália do século 18, até a sua unificação.

    Ocorre que, na hora de sua morte, Don Fabrizio confessa que, ao longo da vida, fez muitas coisas de que se arrepende, com pequenos lampejos, “entre as cinzas de seus erros”, acerca de momentos felizes que viveu. E esses momentos não possuem correlação com dinheiro, poder, vitórias e glórias, mas com o sorriso da esposa, em seu primeiro encontro, ou uma valsa dançada, um perfume sentido no ar, a aurora de uma nova manhã...

    Coisas simples

    Assim é, também, a nossa experiência na Terra. O que nos faz felizes são as coisas simples. Os gestos de bondade. O amor e a amizade sinceros. O sorriso de um filho. A contemplação de uma linda paisagem. Buscamos, muitas vezes, prazeres e sensações, reconhecimento e dinheiro, quando o que importa está muito além disso.

    Don Fabrizio, como tantas pessoas, percebeu isso apenas ao constatar que a morte estava próxima. A partir desse momento, tornou-se mais humano, menos autoritário, mais sensível ao que estava ao seu redor e que antes, simplesmente, não percebia.

    Um livro que traduz a hora da morte de um homem poderoso, imerso em um universo de vaidades e interesses dúbios, é 'A Morte de Ivan Ilitch', de Tolstói. Neste, um juiz de direito da alta corte, na Rússia do Século 19, dá-se conta de que, em seu memento mori, só restou-lhe a companhia do criado. O romance foi escrito logo após a conversão religiosa do escritor e é de uma sensibilidade impactante.

    Todos nós devemos refletir sobre como será o nosso memento mori, qual será o nosso legado e quem serão as pessoas que estarão realmente presentes, quando a nossa vida estiver chegando ao fim. Caso a conclusão a que você chegar não seja aquela que desejava, olhe para dentro de si e analise as suas escolhas e para o rumo que está dando às coisas, por aqui.

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    Sempre há tempo de mudar...
    Erika Figueiredo, escritora
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