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Carnaval

Mais que uma celebração: enredos afro serão destaque em 2025

Nove escolas de samba levarão temática africana para Sapucaí

Publicado 20/11/2024 às 8:08 | Autor: André Silva
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Nove escolas de samba levarão a temática africana para os desfiles
Nove escolas de samba levarão a temática africana para os desfiles |  Foto: Divulgação / Gabriel Monteiro / Riotur

Nove das 12 escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro levarão enredos de temática africana para a Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2025. Entre as abordagens, estão homenagens a personalidades negras, referências às religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda, e narrativas que destacam o vínculo histórico e cultural entre o Brasil e o continente africano.

A escolha reforça a tradição do carnaval como expressão da herança cultural negra. Nos últimos três carnavais, desde a retomada após a pandemia, duas campeãs tiveram enredos afro (Grande Rio em 2022 e Viradouro em 2024), além de três vencedoras do Estandarte de Ouro de Melhor Escola (Grande Rio, Beija-Flor e Portela).

O carnavalesco Leandro Vieira, da Imperatriz Leopoldinense, destaca a importância dos desfiles para a reflexão social.

“Os desfiles das escolas de samba são espaços para pensar o Brasil e suas pautas urgentes. Não é possível falar de sociedade brasileira sem abordar a cultura afro e enfrentar as distorções históricas sobre religiões de matriz africana. É nesse espaço que se avança com essas discussões”, afirmou.

Ele também ressaltou o papel do carnaval na disseminação de conhecimento e combate ao preconceito.

Aspas da citação
Quando há informação, reduzimos a desinformação. Com menos desinformação, o preconceito perde força. Assim, o carnaval se torna uma ferramenta de transformação social.
Leandro Vieira Carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense
Aspas da citação

Para Cláudio Honorato, doutor em História e coordenador de pós-graduação lato sensu em História da África do Instituto Pretos Novos (IPN), a conexão entre o carnaval e a cultura afro-brasileira vai além da celebração.

“O carnaval é a maior festa brasileira e tem suas raízes profundas nas tradições africanas. É uma síntese da africanidade na brasilidade, um espaço que dá visibilidade ao povo preto e promove a inclusão e a harmonia entre os diferentes povos do país”, disse.

Cláudio também destacou a importância de incorporar os temas carnavalescos na educação.

Aspas da citação
Enredos como os que homenageiam Zumbi dos Palmares, Chico Rei e Chica da Silva são fundamentais para as salas de aula. Eles ajudam a desconstruir estereótipos, promovem o respeito às tradições culturais afro-brasileiras e fomentam o conhecimento sobre nossa história.
Cláudio Honorato Coordenador de pós-graduação lato sensu em História da África do IPN
Aspas da citação
Viradouro: campeã do Carnaval homenageou as mulheres negras em 2024
Viradouro: campeã do Carnaval homenageou as mulheres negras em 2024 |  Foto: Péricles Cutrim

Júlio Cesar, doutor em História pela Fiocruz, professor de História Contemporânea da UFF e membro do comitê científico do Cais do Valongo, também ressaltou a importância do Carnaval como espaço de ressignificação.

“A herança afro-brasileira se manifesta no modo como nossos antepassados reinterpretaram o mundo que lhes foi imposto. Isso aparece na música, na arte e no carnaval, que mistura crítica social e celebração para dar voz a um povo que clama por justiça”, disse.

Júlio também enfatizou o potencial do carnaval para divulgar a história africana. “Precisamos desmistificar a ideia de que a África é só sofrimento. Viemos de reinos poderosos e ricos, e o carnaval pode exaltar isso. É uma oportunidade de celebrar e, ao mesmo tempo, denunciar as condições de marginalização vividas por muitos afro-brasileiros”, completou.

Só valorizamos aquilo que conhecemos, e a ignorância é o terreno fértil para o preconceito.

Livro é a base 

O historiador é autor do livro "À Flor da Terra: O Cemitério dos Pretos Novos no Rio de Janeiro", obra que inspirou o enredo da Mangueira para 2025, intitulado “A Flor da Terra”. Sobre o tema, Júlio reforçou:

Aspas da citação
O livro mostra como o passado escravista impacta o presente. Esse olhar crítico é fundamental para o Brasil avançar em questões de reparação e memória histórica.
Júlio Cesar Membro do comitê científico do Cais do Valongo
Aspas da citação

Leandro Vieira ainda ressaltou que o espaço das escolas de samba é histórico para a cultura negra.

“Desde o pós-abolição até a criação das primeiras escolas, o carnaval tem sido uma trincheira de luta e afeto que reafirma valores e tradições pretas. Não se trata de uma nova abordagem, mas de um aprofundamento daquilo que sempre foi central para o samba”, afirmou.

Cláudio Honorato reforçou o papel da educação na valorização da cultura afro-brasileira. “Precisamos aplicar as leis que determinam o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana. Só valorizamos aquilo que conhecemos, e a ignorância é o terreno fértil para o preconceito. O carnaval é um ponto de partida para essa transformação, mas a escola tem um papel fundamental nesse processo”, finalizou.

Júlio Cesar concluiu destacando a relevância do carnaval para a identidade nacional. “Ampliar o discurso sobre a matriz africana através do carnaval é uma maneira de reforçar que a experiência afro-diaspórica é central para entendermos o Brasil. É mais que uma celebração: é uma reafirmação da nossa história e da nossa cultura”.

Para 2025, enredos como o da Mangueira prometem trazer reflexões sobre as contribuições afrodescendentes para a formação cultural brasileira, reforçando o papel da Sapucaí como um espaço de resistência, memória e transformação social.

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